Crise Mundial

16 outubro, 2008

O combate por alimentos, combustíveis e habitação desafia o capitalismo

por Jaimeson Champion [*]

Nos últimos anos muitos economistas burgueses avançaram a teoria de que economias capitalistas por todo o globo haviam em grande medida “desconectado” da maior economia do mundo, os EUA. A teoria dizia que o advento da União Europeia e o crescimento de poderosas economias na Ásia haviam limitado o risco de que uma crise económica na economia dos EUA pudesse disseminar-se globalmente.

Chega de ilusões. O sistema capitalista global está agora nos espasmos da maior catástrofe económica desde a Grande Depressão. A crise sistémica que emergiu primeiro no sector habitacional dos EUA agora difundiu-se para quase todos os mercados em quase todos os cantos do globo.

Como disse o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, numa recente cimeira no Brasil: a crise económica que emana dos EUA tem “o poder de uma centena de furacões”.

A seguir à dissolução da União Soviética, a qual fazia de contrapeso ao imperialismo estado-unidense, os EUA estenderam brutalmente a sua hegemonia económica por todo o mundo. Os tentáculos do capital financeiro estado-unidense têm estado a sugar quase todos os mercados, em todos os cantos do mundo, aumentando muitíssimo o risco de contágio. A crescente interconectividade transfronteiriça das redes de produção e dos fluxos de capital financeiro tornaram o sistema capitalista global mais instável.

O carácter cada vez mais global desta crise ficou evidente em 6 de Outubro quando os mercados de acções europeus e asiáticos principiaram a semana com mergulhos abruptos.

O FTSE na Grã-Bretanha, o DAX na Alemanha e o CACA 40 em França caíram todos mais de 5 por cento em 6 de Outubro. Na Ásia, o índice Shanghai Composite e o Nikkei também caíram mais de 5 por cento em 6 de Outubro.

O anúncio em 3 de Outubro de que o Congresso dos EUA havia aprovado uma dádiva sem precedentes e criminosa de US$700 bilhões aos bancos aparentemente pouco fez para acalmar os mercados estado-unidense ou internacionais. Os principais índices dos EUA também caíram em queda livre ao tocar o sino de abertura, com o Dow a descer aproximadamente 600 ponto pelo meio dia de 6 de Outubro.

O secretário do Tesouro Paulson tentou vender o salvamento ao público dos EUA dizendo que sem a aprovação desta lei a economia auto-destruir-se-ia. Mas apesar da aprovação da lei do salvamento, a tempestade económica está claramente a continuar com força de furacão.

Líderes europeus anunciaram a sua própria rodada de salvamentos de instituições financeiras ao longo do fim de semana de 4-5 de Outubro. Em 5 de Outubro foram anunciados salvamentos para o Hypo Real Estate, um grande prestamista hipotecário alemão, e para o Fortis, uma companhia bancária e de seguros com sede na Bélgica.

Temendo aparentemente a espécie de corridas bancárias que destruíram instituições financeiras nos EUA, múltiplos países europeus apressaram-se a anunciar planos para garantir depósitos bancários. A Suécia, Alemanha, Dinamarca, Irlanda e Espanha anunciaram todos novos planos para assegurar depósitos.

Capitalismo: um sistema tendente à crise que deve ser abandonado

Políticos e sabichões capitalistas recentemente emitiram a afirmação de que esta crise era evitável e que foi uma questão de “falta de regulamentação” nos mercados financeiros que levou ao actual colapso.

Mas a realidade é que crises económicas tais como aquela que o mundo está actualmente a sofrer de lado a lado são inerentes ao modo de produção capitalista. Estas crises resultam da superprodução capitalista.

Como escreveu Karl Marx em “Teorias da mais valia”, a “Superprodução é especificamente condicionada pela lei geral da produção de capital: produzir até ao limite estabelecido pelas forças produtivas, o que quer dizer explorar a quantidade máxima de trabalho com o montante de capital dado, sem qualquer consideração pelos limites reais do mercado ou as necessidades suportadas pela capacidade para pagar”.

Crises de superprodução irrompem quando trabalhadores já não podem mais permitir-se comprar toda a multidão de bens que os capitalistas os levaram a produzir. A superprodução conduz a mercados saturados, os quais por sua vez levam a uma queda da taxa de lucro para os capitalistas. Confrontados com uma queda da taxa de lucro, a classe capitalista responde com cortes de salários e despedimentos maciços num esforço para cortar custos.

Estes factores são hoje evidentes com mercados de habitação por todo o globo abarrotados com milhões de casas não vendidas, lucros em hemorragia contínua para fora dos bancos e corporações, despedimentos e cortes salariais a continuarem sem pausa.

Mas existe uma alternativa a este sistema apodrecido e tendente à crise, e esta alternativa é o socialismo. Sob o socialismo, a produção não é dirigida pela classe capitalista, e ela não é efectuada com o objectivo de obter lucros. Ao invés disso, sob o socialismo a produção é organizada para atender necessidades humanas específicas. Sob o socialismo, não ocorreria a calamidade absurda de milhões de lares arrestados a ficarem vagos enquanto o número dos sem teto ascende.

A eliminação da produção para lucro elimina a causa raiz das crise de superprodução. Confrontado com uma crise económica global de proporções históricas, a necessidade de eliminar o capitalismo e substituí-lo pelo socialismo nunca foi tão grande.

Combater os arrestos, desafiar as relações capitalistas de propriedade

Felizmente, as sementes de uma revolução socialista à escala mundial estão a ser semeadas diariamente. As sementes estão a brotar nos movimentos conduzidos pelos trabalhadores que combatem os arrestos e neste processo desafiam as relações capitalistas de propriedade. Elas estão a brotar no ressurgimento da esquerda latino-americana, a qual efectua um desafio directo ao imperialismo dos EUA no hemisfério. As sementes de uma revolução socialista estão a brotar nas manifestações militantes contra o aumento dos custos de alimentos e combustíveis que tiveram lugar na África, Ásia, Europa e nos EUA. E estão a brotar nas manifestações espontâneas contra os salvamentos de bancos que se tem verificado através dos EUA.

No seu prefácio à “Crítica da economia política” de Karl Marx, Frederick Engels, referindo-se às crises de superprodução, escreveu: “Cada crise sucessiva está obrigada a tornar-se mais universal e portanto pior do que a precedente”. Ele previu que o resultado final seria “uma revolução social tal como nunca foi sonhada na filosofia dos economistas”.

Com o crescimento da solidariedade da classe trabalhadora, no século XXI ela é capaz de provar que Marx e Engels estavam certos.

Créditos: http://www.anncol-brasil.blogspot.com/
O original encontra-se em http://www.workers.org/2008/world/economy_1016/

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .


Na Bolívia se joga o futuro da América Latina

22 setembro, 2008

Solidariedade ao povo boliviano! Na Bolívia se joga o futuro da América Latina!

Os acontecimentos que se sucedem em Bolívia deixam aos anarquistas organizados na FAG em sentido de alerta. O problema não é a defesa de um governo com perfil nacionalista e raízes indígenas.. O tema em pauta é a defesa incondicional da luta popular dos povos latino-americanos. Viemos acompanhando e tendo contatos orgânicos com os companheiros bolivianos desde o verão de 2003, portanto, antes da vitória popular na Guerra do Gás, antes da derrubada de Gonzalo Sanchez de Losada, antes da derrubada do presidente que o sucedeu Carlos Mesa e muito antes da vitória eleitoral do MAS.
Desde aquele ano ficou nítido para a FAG que na Bolívia o jogo político era duro sem limites legais ou institucionais. A luta para a construção do Poder Popular tem várias vertentes, e no momento, o governo de Evo Morales e Álvaro Garcia Linera expressa parte da vontade popular em retomar a soberania definitiva sobre seu território ancestral. Evo não faz o que quer e nem governa com os banqueiros, como faz o ex-metalúrgico Lula. Hoje o país que derrotou o neoliberalismo dezenas de vezes se vê diante de seu maior desafio. O conjunto de povos e nacionalidades ancestrais do antigo vice-reinado do Alto Peru, as sociedades tradicionais quéchuas, aymaras, guaranis, tupis e dezenas de outras etnias, os descendentes vivos na mestiçagem das cidades, as heróicas resistências mineiras, cocaleras, de El Alto, de Cochabamba, o combate de rua em La Paz esquina por esquina derrotaram o inimigo diversas vezes. Este povo fez da organização do tecido social, da prática de justiça comunal e alianças de base o baluarte da derrota de um sistema de partidos políticos podres, corrompido com as experiências privatizadores dos anos ’80; com pedras e dinamites venceu nas ruas o Exército que operou sob o comando do general traficante Hugo Banzer; no avanço da prática cooperativista contesta a presença nefasta de transnacionais do petróleo e derivados, incluindo a odiosa presença subimperialista brasileira no país hermano.
Agora a luta é intestina e defronta a oligarquia da chamada Meia Luna, dominante nos departamento de Tarija, Beni, Pando, Chuquisaca e comandado pelos latifundiários da soja e narcotraficantes de Santa Cruz contra os interesses do povo. O governo de Morales é um alvo, mas a meta dessa gente é a destruição da organização popular e das alternativas indigenistas, das formas tradicionais e comunitárias de controle da vida social, da re apropriação popular do subsolo e das riquezas naturais. A dita luta por autonomia nada mais é do que a vontade política de uma oligarquia aliada das transnacionais, de um intento de golpe patrocinado pelo Departamento de Estado, CIA e DEA e financiado com o dinheiro roubado do povo boliviano. As multidões de homens e mulheres que lutam por “autonomia” são, em sua grande maioria, empregados, afiliados políticos e cabos eleitorais destes oligarcas.

A situação de desobediência civil e não governo é enorme na Bolívia. Por esquerda, os protestos sociais são cada vez mais duros e as metas de reivindicações obrigam a Morales a fazer o que a maioria do povo organizado propõe. Mas, por direita, a oligarquia que também saiu vitoriosa no referendo revocatório dos governos nacional e departamentais, joga todas as suas forças no caos, no locaute e no bloqueio econômico. Eles não querem pagar impostos para o governo de La Paz, querem se apropriar das riquezas nacionais para si, da mesma forma que os bancos sugam nosso PIB e que a burocracia escualida chupava o sangue da Pedevesa venezuelana até a vitória do povo em abril de 2002. Companheiras e companheiros, na Bolívia hoje se luta uma batalha contra a oligarquia, batalha esta que faz parte da guerra do povo latino-americano contra os grilhões do imperialismo sob o manto macabro da globalização.

Temos algo a aclarar. É preciso expressar que a FAG como organização não se filia na defesa de nenhum governo de tipo estatal ou burguês. Nosso apoio, desde há muito é para com o processo levado a cabo pelos povos que reivindicam a herança bolivariana e artiguista, é ao lado da vontade política das instituições sociais e entidades de base que peleiam arduamente contra a burocracia crescente na Venezuela e as vacilações típicas de dirigentes com carisma, mas sem a organicidade e a devida obediência ao povo como fazem os verdadeiros militantes socialistas. Enfim, nossa luta é ao lado da Conaie equatoriana, da Anmcla venezuelana, da COR heróica de El Alto e de todo o movimento popular da Bolívia.

O impasse político do governo Morales deveria ser resolvido indo além das possibilidades legais. Existe uma esquerda popular muito mais à esquerda do que o recalcitrante vice-presidente Linera e dos burocratas de sempre oscilando entre as universidades latino-americanas e os governos com vernizes nacionalistas. À esquerda do MAS está a ex-guerrilha do Movimento E.G. Pachakuti, está a Coordenação Regional de El Alto, estão as instituições sociais de tipo Justiça Comunitária, existe um enorme tecido social organizado que não vai entregar o país e a terra ancestral para os herdeiros de Cortez e Pizarro.

Outra Batalha de Ayacucho; outro Levantamento de 1809

Em 1809, a valentia e a hombridade dos jovens bolivianos não reconheceram a pretensão de Carlota Joaquina de governar os vice-reinados. Esta decisão apontou o rumo da libertação da América no coração do Continente. A resposta realista veio rápida, quando o governador de Potosí, leal ao colonialismo, ocupou militarmente as cidades rebeldes. Em 1824, na Batalha de Ayacucho, a reação sai derrotada política e militarmente. A independência política não garantiu a libertação dos povos, com Poder Popular, Autogestão e Federalismo Político. Quase 190 anos depois e vivemos o mesmo embate. No avanço do poder do povo, na transformação do Estado nacional em espaço público e sob controle direto, no desmonte dos aparatos burgueses de regulação social, a direita aparece com toda a sua cara. Hoje é na Bolívia, em 2002 foi na Venezuela, por três vezes nos últimos 11 anos o povo do Equador derrubou um presidente, em dezembro de 2001 a garra argentina derrotou o neoliberalismo e todo o seu projeto de desmonte da vida em sociedade. Hoje a guerra dos povos latino-americanos rumo à sua libertação livra a Batalha na Meia Lua boliviana.

Que a oligarquia saia derrotada!

Que a CIA-DEA-Departamento de Estado dos EUA saiam derrotados!

Que o povo boliviano ultrapasse os limites do governo nacional e avancem no rumo do Poder Popular!

Porque o neoliberalismo e o imperialismo são a mesma coisa imunda!

Porque o Poder Popular na América Latina se constrói na luta!

Toda a solidariedade ao povo Boliviano!

O futuro do país Hermano será quéchua, aymara, guarani, tupi e popular ou não será!

A América Latina nunca se rende!

Poder Popular, Autogestão Social e Federalismo Político!

Porto Alegre, 13 de setembro de 2009,

Federação Anarquista Gaúcha (FAG) – Fórum do Anarquismo Organizado (FAO) – aliança estratégica com a Federação Anarquista Uruguaia (FAU).


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.